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21 de Julho de 2026
No Dia do Amigo, celebrado em 20 de julho, o debate sobre amizades ganha também uma dimensão de saúde pública. Além do valor afetivo, vínculos consistentes contribuem para reduzir o estresse, ampliar a sensação de segurança e fortalecer o bem-estar emocional ao longo da vida. Por outro lado, quando essas conexões enfraquecem, aumentam os riscos de isolamento, sintomas ansiosos, tristeza persistente e sensação de solidão.
De acordo com Ligia Kaori Matsumoto, psicóloga do Hospital Dia M’Boi Mirim I, unidade da Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo (SMS-SP) gerenciada pelo CEJAM, a amizade é entendida como um fator de proteção importante para a saúde física e mental.
A seguir, a especialista responde às principais perguntas sobre o tema.
Do ponto de vista da saúde, o que acontece quando uma pessoa tem vínculos de amizade sólidos? E o que muda quando esses vínculos faltam?
A amizade funciona como um fator de proteção para a saúde física e mental. Um amigo é, literalmente, aquela pessoa com quem podemos contar. Ter boas amizades ajuda na percepção de segurança, confiança e na motivação para enfrentar os desafios do cotidiano.
Quando esses vínculos faltam, há maior risco de depressão, sintomas ansiosos e sensação de solidão. Isso não significa que a ausência de amizade cause, por si só, um adoecimento, mas ela amplia a vulnerabilidade emocional e dificulta o enfrentamento de situações difíceis.
Por que a amizade tem um peso tão grande na saúde e na longevidade?
Porque nós, seres humanos, somos seres sociais. A nossa formação começa no contato com o outro e se constrói ao longo da vida, na família, na escola, no trabalho e no convívio em sociedade.
A amizade exerce um papel importante nesse processo. Ela protege, transmite segurança, eleva a autoestima e fortalece o sentimento de pertencimento. Além disso, pode estar associada à liberação de neurotransmissores que favorecem a sensação de bem-estar. Por isso, não se trata apenas de uma relação afetiva, mas de um componente relevante da vida social e emocional.
Como as amizades funcionam como um “amortecedor” diante do estresse?
Diante de uma situação estressante, saber que existe alguém em quem se pode confiar é reconfortante e tranquilizador. Compartilhar dificuldades com um amigo não elimina o problema, mas muda a forma como ele é vivido.
Esse suporte traz a sensação de cuidado, de estar em um lugar seguro e de não estar sozinho. Com isso, a sobrecarga emocional tende a diminuir, e o corpo também sente menos os efeitos do estresse. Em períodos de maior pressão, ter uma rede de apoio faz diferença para atravessar os desafios com mais equilíbrio.
Qual a diferença entre estar sozinho e sentir-se solitário?
Estar sozinho é algo objetivo: não ter fisicamente uma companhia. Já sentir-se sozinho ou solitário é uma experiência subjetiva, emocional.
É possível estar sozinho e se sentir pleno. Ao mesmo tempo, estar rodeado de pessoas e, ainda assim, se perceber só. Por isso, a solidão não depende apenas da presença ou ausência de companhia, mas da qualidade dos vínculos e da forma como a pessoa se sente em relação a eles.
Por que é tão difícil fazer e manter amizades na vida adulta?
Na vida adulta, muitas mudanças acontecem ao mesmo tempo. Há rotina de trabalho, estudos, cuidado com a família e outras responsabilidades, o que reduz o tempo disponível para convivência e novas experiências sociais.
Além disso, muitas pessoas acreditam que, nessa fase, o círculo social já deveria estar consolidado. Isso gera insegurança ou vergonha para iniciar novos vínculos. Situações como divórcio, mudança de cidade ou transformações na vida social também exigem recomeços. Nesses casos, reconstruir amizades parece desafiador, mas faz parte dos ciclos da vida.
Como as redes sociais estão transformando as amizades?
A tecnologia trouxe benefícios importantes. Ela facilita manter contato com pessoas de diferentes lugares e aproximar indivíduos com interesses semelhantes. Esse recurso pode ser muito positivo, especialmente quando a distância física dificulta o convívio.
Por outro lado, também pode favorecer relações mais superficiais e uma falsa sensação de conexão. É fundamental observar se os vínculos ficaram restritos à rede social e se houve um afastamento dos contatos presenciais. A tecnologia auxilia, mas não substitui completamente a convivência real, o olhar direto e a presença concreta.
Como as necessidades de amizade mudam ao longo da vida?
Na infância, os amigos são importantes para brincar, aprender a compartilhar, esperar a vez e desenvolver a cooperação. Também ajudam a construir aspectos ligados à autoestima e ao pertencimento.
Na adolescência, as amizades ganham ainda mais centralidade. Os grupos têm papel essencial no desenvolvimento da independência e da autonomia. Já na fase adulta, se torna mais difícil manter vínculos, mas o número de amigos tende a diminuir enquanto a qualidade das relações aumentar.
No envelhecimento, a amizade continua tendo valor. Ela estimula habilidades cognitivas, protege do isolamento, da depressão e da perda de funcionalidade. Em todas as fases, portanto, a amizade acompanha necessidades diferentes, mas segue sendo relevante.
Quais sinais indicam que a rede de apoio está fragilizada e como reconstruí-la depois de se afastar dos amigos?
Os sinais costumam aparecer de forma gradual e silenciosa. Entre eles estão evitar atividades sociais que antes faziam parte da rotina, sentir que precisa fazer tudo sozinho, passar os períodos de descanso isolado e sentir vergonha de procurar ajuda.
Esses comportamentos merecem atenção porque indicam um enfraquecimento da rede de apoio. Quando isso acontece, a pessoa tende a ter menos recursos emocionais para lidar com frustrações, perdas e situações de estresse.
O afastamento acontece por diversos fatores, mas, apesar disso, não precisa ser definitivo. É importante entender que os vínculos mudam ao longo da vida e que pequenos gestos auxiliam a se reaproximar de pessoas.
Retomar o contato, enviar uma mensagem, aceitar um convite ou dar o primeiro passo para uma conversa faz a diferença. A rede social é uma aliada nesse processo, desde que usada de forma consciente. Recomeçar não significa apagar o passado, mas abrir espaço para novas possibilidades de relação.
Qual mensagem você deixaria para quem considera a amizade algo secundário?
Às vezes, só percebemos a importância de uma amizade quando ela falta. Amigos dividem os momentos felizes, mas também estão presentes nos períodos difíceis e nas fases de maior fragilidade.
Uma experiência ruim pode acontecer, e isso não deve levar à generalização de que toda amizade será assim. Uma decepção não define as relações que ainda serão construídas. Amizade significa apoio, presença e a lembrança de que ninguém precisa enfrentar tudo sozinho.
Em uma sociedade marcada por pressa, dispersão e mudanças constantes na forma de convivência, preservar vínculos segue sendo uma atitude simples, mas importante para a saúde mental. Cultivar amizades, retomar contatos e pedir ajuda quando necessário são gestos que fortalecem o cuidado com a vida e com o outro.
Fonte: Comunicação, Marketing e Relacionamento
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